Esse não é um texto bonito. Não é poético e muito menos romântico. É mais sobre como algumas coisas podem destruir você. No meu caso, sobre como me destruiu. Mas vamos pelo começo, mais especificamente para o primeiro texto que eu fiz sobre você no nosso 3° mês de namoro (apesar de ele estar inteiro no post abaixo). “Você nunca me disse: ‘‘Nossa! Como você está linda!’’, e eu soluço mais uma vez em frente ao espelho me perguntando o que há de errado comigo. O batom saiu da minha boca sem ser notado, e o meu cabelo ficou bagunçado sem que você percebesse que eu fiquei horas arrumando ele do jeito que você gosta. Eu não consigo ver brilho nos seus olhos enquanto você me olha e eu não consigo perceber nas suas atitudes que eu sou aquela que te faz perder o ar só de lembrar. Eu não sinto que eu sou a garota a qual você sente orgulho em ter, e, consequentemente eu não me sinto especial ao ser sua.” Provavelmente você não se lembra dessas palavras, mas eu me lembro até da primeira vez que você me fez chorar. Eu estava parada na janela de casa e você sentada no meu sofá cama, e você me chamou de monstro quando eu tentei te mostrar algumas verdades. E eu chorei de Londrina a Porto Alegre, e chorei pelas lindas ruas de Gramado e continuei chorando durante todo o meu retorno. Você não se preocupou com a viagem, comigo, com o vôo que eu perdi, com nada.

Você me abandonou naquele dia e você me abandonou 1 ano e 6 meses depois de novo. Mas isso todo mundo está careca de saber, e eu não vim aqui refrisar isso. Vim para deixar documentado sobre como você me fez sentir realmente um monstro. Sobre como aquele texto logo ali em cima faz tanto sentido ainda hoje, meses depois. Sobre a última sexta feira onde eu tentei desesperadamente dar fim a minha vida, pois eu sentia vergonha e nojo de mim mesma por não ser a mulher que você admira.

Vamos lá, por 4 meses eu chorei todas as noites, sem exceções, e eu não entendia o porquê. Desde aquela semana na qual você disse “Estou mais bonita sem você, mais feliz, com a aura mais leve, estou brilhando, estou vivendo de verdade, minha família diz que estou brilhando, meus amigos, e eu realmente estou muito melhor sem você” eu mudei. A garota cheia de sonhos que você conheceu engoliu cada uma das suas palavras e foi morrendo lento e gradativamente todos os dias. Fiz das suas palavras uma verdade absoluta e nada, nem mesmo ninguém conseguia me fazer sentir diferente do monstro que você me fez sentir. Perguntei aos seus amigos o que tinha de errado comigo pra você me tratar daquele jeito, e perguntei também aos meus. Revivi diariamente todo o nosso relacionamento tentando encontrar onde eu tinha sido, verdadeiramente, ruim e cruel como você disse que um dia todos iriam perceber que eu era. Não importava onde eu buscasse respostas, eu não encontrava, então eu acreditei, simplesmente porque você disse, que eu era um monstro. Desenvolvi pânico, me afastei dos meus amigos, me machucava a cada banho, abandonei todos os empregos e trabalhos extras que eu tinha, sempre com a mesma justificativa “Eu sou horrível, olha as palavras dela… Vocês estão infinitamente melhor sem mim também e eu não vou macular a vida de vocês como eu fiz com ela.” Eu até tentei nos primeiros dias sair, deixar outras pessoas me tocar, mas cada toque se tornou uma tortura. “Eu sou feia, sou chata, sou velha, e essa pessoa está me tocando agora apenas para dizer daqui um tempo que se esforçou MUITO para gostar de mim por um ano e meio a um ponto que deixou de ser ela mesma”. Vê? Você disse isso pra mim, e suas palavras do passado se misturavam com o meu presente. Por fim, eu já não saía, não comia, não via graça em levantar da cama, afastei tudo e todos de mim e me afundei ainda mais nas suas palavras. Eu perdi peso, perdi dinheiro, perdi emprego, mas tudo isso é tão pequeno perto do fato de que, principalmente, eu me perdi. Meus amigos diziam que eu estava ficando louca, e eu estava, porém eu não entendia o porquê.

Mas sabe o que é, eu te coloquei grande demais. Apesar de tudo, você era a pessoa mais incrível do mundo pra mim! A garota mais bonita em qualquer balada e a mulher mais inteligente entre uma multidão. E se a pessoa mais foda do mundo pra mim está dizendo que eu sou ruim, então sim, eu sou. Se a pessoa que eu mais amei não se importa comigo e simplesmente me abandonou, então sim, eu sou um nada. Então eu me afundei na bebida, já tinha abandonado meus empregos, e no fundo do meu coração eu acreditava que quando eu voltasse e você olhasse pra mim, eu iria ser igual as meninas que você sempre quis. Iria pra balada, iria beber, iria ser engraçada e popular.

Eu me esqueci de quem eu era na esperança de me tornar alguém que você amasse.

Finalmente eu ia poder te dizer “Ei, não preciso trabalhar amanhã em 2... 3 empregos, posso ir pra balada com você em plena terça feira.”, “Olha como eu fico engraçadinha quando fico bêbada”, ou “Ei, olha como eu não sou mais a menina cheia de cicatrizes da vida que você conheceu, eu posso ser bonita e legal como as meninas que você anda agora.” Eu observei as pessoas com quem você está se relacionando agora. Todas jovens, bonitas, descoladas, rodeadas de amigos, com vários seguidores e curtidas nas redes sociais e, aparentemente, leves. Mas sabe, cheiro, com 19 anos, que é a idade da maioria das pessoas a sua volta, eu estava dormindo na rua e catando coisas do lixo pra comer. Com 22, que é sua idade agora, eu já tinha um apartamento simples, mas mobiliado, uma boa poupança, viajava uma vez no mês, pagava minha faculdade, minhas contas e era independente. E eu sempre senti tanto orgulho de mim mesma antes de você. Eu me achava foda, mas durante muitos meses eu fui me apagando, pois eu sentia que apesar das suas palavras falarem que sim, as suas atitudes não me admiravam. Além disso, não importava o quanto eu fizesse, nada nunca era bom o suficiente pra sua mãe, sua irmã, prima, tia, amigos, e etc. Mas então, conforme eu observava a vida das pessoas a sua volta agora, as minhas crises começaram a ser ainda mais constantes. O choro começou a me inundar de hora em hora e não mais apenas durante a madrugada. Meu sorriso foi substituído por olheiras e a minha pele cor de mostarda ficou ainda mais cheio de marcas. Meu cabelo começou a cair absurdamente, e eu já não conseguia mais sequer comer. Eu não queria mais ser eu! Mais do que nunca, eu não suportava! Eu me perguntava todos os dias “O que uma menina de 19 anos tem que eu não tenho?” E cada corte, cada lágrima, cada instante, só me faziam pensar que se eu não tivesse sido abusada, se não tivesse passado fome, se não tivesse morado na rua, se meus pais me ajudassem, se eu não tivesse tantas cicatrizes e dores, era comigo que você estaria e não com ela. Eu nunca fui a pessoa mais feliz do mundo e, de fato, muitas coisas ruins e tristes aconteceram comigo. Mas apesar de vez ou outra eu me sentir triste pelas fatalidades da vida, eu nunca senti vergonha de mim mesma. Nunca senti vergonha das minhas marcas de guerra. Mas ali estava eu, diariamente, por meses, ajoelhada no quintal de casa em cima das pedras, chorando para que Deus me levasse depressa, pois eu, claramente, era um dos erros que ele cometeu e que você e a sua indiferença eram a prova viva de que eu era a vergonha dele. Afinal, que outro motivo teria para me você me bloquear da sua vida como se eu fosse algo tão ruim, um vírus, o qual você só quer distância? Quero dizer, suas ex foram tão sacanas com você e ainda sim, você vivia se perguntando o que tinha feito para elas te odiarem tanto. Mas e eu, que tinha feito tudo por você, não trai, não enganei, vivia em função de te fazer sentir a garota mais linda e amada do mundo, porque você me repelia de forma tão agressiva e cruel? Eu era um erro, um monstro e todos estavam melhor sem mim, então sim, era a hora de partir. A sua voz dentro de mim teve mais peso do que a de Deus na minha vida. Eu tinha chegado ao cúmulo da loucura e no fundo do poço.

E então na noite do seu aniversário eu tomei um monte de comprimido, e deitei, esperando que, finalmente, eu não acordasse na manhã seguinte. Me despedi dos meus amigos e calculei a minha morte. Chorei trancada no banheiro por horas antes de tomar essa decisão. Eu mesma não acreditava que alguém podia chorar todos os dias por meses e não morrer desidratada. Repito, eu não suportava mais ser a pessoa que não mereceu sequer uma ligação sua e que se fazia de “coitadinha” sobre o seu descaso apenas para “sair por cima”. Mas eu acordei muitas horas depois, ainda mais debilitada. Acordei e chorei. Chorei porque eu tinha falhado mais uma vez, como tinha falhado com você, e infelizmente, eu continuava viva.

Nos últimos dias vi 13 reasons why. E após cada episódio eu chorava mais ainda por me reconhecer cada vez mais na Hanna. A cena do estupro no capítulo 12 realmente me deixou nauseada, pois sim, eu já vivi aquela cena tantas vezes na minha infância. E eu sentia cada vez mais nojo, mais raiva, mais vergonha, por ser uma Hanna da vida. Eu queria ser o Justin, com um sorriso lindo e popular, alguém pela qual você se apaixonasse. Só que isso acaba, meu bem. As festas, a rodinha de amigos na balada sempre tão cheia e os finais de semana movimentados. No final, todos eles se viram sozinhos, principalmente o Justin quando ele mais precisou. Mas a questão é… Durante os 13 episódios eu queria ser um dos 13, alguém que você admirasse, e não a Hanna. Era absurda a minha vergonha de ser quem eu sou. A vergonha que eu tinha por saber que cada dor que ela sentia, eu também sentia ou já senti alguma vez na vida. Caramba! Eu preferia ser um dos meninos escrotos daquela série, mas estava com vergonha de ser a única pessoa “boa” daquela história. E mais doloroso ainda era reconhecer que apesar de eu te achar a pessoa mais incrível do mundo, e querer sua atenção como a Hanna quis de cada um deles, você na verdade era um dos 13 porquês eu queria acabar com a minha vida.

Na segunda cheguei no meu atual patrão para pedir as contas, afinal eu já não comia, não dormia, não rendia no trabalho… Eu tinha desistido de tudo. E não importa o quão longo fique esse texto, ele jamais será suficiente para que vc entenda como eu me transformei num zumbi, num fantasma e o quanto eu me tornei uma pessoa triste e depressiva. Eu iria pra casa, me afundar no colchão e esperar a morte caminhar até mim a passos lentos. Meu patrão ficou desesperado, meus amigos não sabiam mais o que falar, ou fazer. “Jessy! Acorda, cadê aquela menina cheia de planos e sonhos?” e eu só repetia, “Morreu… Morreu… Não tenho mais sonhos, pois tenho vergonha do meu passado, não tenho mais planos, pois tenho nojo de mim mesma. Eu sou ruim, e como ela disse, um dia vocês vão perceber isso”. Mas após uma longa conversa com meu superior, eu fui atrás de olhar mais uma vez algumas fotos sua. Seu cabelo está diferente, óbvio, mas você continua a mesma. E eu finalmente enxerguei você como você realmente é, e não como a super mulher que eu criei na minha cabeça.

E eu estou aqui pra dizer que eu entendo você, cheiro. Do fundo do meu coração, desde ontem, eu entendo. Entendo porque você disse que eu era ruim. Tudo faz sentido agora. Eu estava cega e só enxergava o pedestal no qual eu coloquei você. Você não é maior do que eu como eu estava te colocando, e nem menor. A verdade é que nós somos apenas absurdamente diferentes. Você me acha ruim porque eu te cobrei demais. E eu imagino agora como devia ser difícil pra você viver com uma pessoa que trabalhava demais, sonhava demais, queria demais, sendo que você não é assim. Uma pessoa que te cobrava acordar cedo para trabalhar, que puxava sua orelha sobre seus estudos e a cada hora propunha um curso diferente para você fazer. Alguém que brigava para você não faltar ao trabalho só porque estava com dor de cabeça, mas eu só queria que tivéssemos dinheiro no final do mês para fazer mais uma viagem e para que, em breve, comprassemos nosso apartamento. Eu te cobrava demais, pois diferente das pessoas que você anda agora, eu tinha medo da fome, do frio, dos imprevistos da vida e não queria que você passasse por nada do que eu passei. Então, sim, eu fui ruim quando te cobrava demais para deixar de lado essa vida na qual você vive em busca da aprovação dos outros, e focasse em construir um futuro bacana pra nós e nossas duas futuras loirinhas. E agora eu sei que, provavelmente, as pessoas que convivem com você hoje não te cobram em nada. Você não é cobrada em nenhum momento. Vocês podem até falar sobre o futuro, mas nenhuma delas realmente se preocupa em te ajudar a construir o seu futuro. E, principalmente, não se preocupam em construir de verdade um futuro com você. É muito mais fácil viver com pessoas que não tem medo de faltar a comida no prato amanhã, pois estão seguras debaixo da asa dos pais, e é tudo muito legal quando você está numa balada onde, naquele momento, todo mundo está feliz e não existe problemas no mundo. Sim, eu fui ruim. Eu quis tanto construir um futuro para você, pra nós, que me esqueci de que agora você é apenas uma menina que nunca passou dificuldade na vida e só quer aproveitá-la ao máximo da forma mais leve possível. Eu não tenho um monte de amigas para ficar rodeada comigo na beira de uma piscina no final de semana, e eu não sou tão descolada o suficiente para “criar” um sol com uma garrafinha de cerveja. Eu queria poder postar numa tarde de quinta feira que “Chaque jour plus beau”, sem ficar louca por não ter um emprego e simplesmente curtir o pôr-do-sol, mas o que eu sabia fazer era cobrar demais para que nós pudéssemos ver vários sóis diferentes em vários lugares do mundo a cada viagem. Eu não sou como elas, e nem como você, e hoje pela primeira vez, diferente dos últimos quatro meses, eu não senti vergonha disso. E eu sinto muito que nós tenhamos nos destruído por tanto tempo tentando fazer nossas peças se encaixarem. Que você tenha deixado de ser uma menina comum e rodeada de pessoas para tentar se nivelar aos níveis de exigências que a vida cobra de mim. Eu sinto que você por um ano e seis meses fez isso. E eu sinto muito por isso.

Mas eu nunca te obriguei a ficar comigo ou a se esforçar tanto. Você sabia, dia após dia, que não estava feliz, que eu não era tudo o que você queria ou desejava, mas preferiu se enganar e me enganar por meses até que sua paciência explodiu e você simplesmente foi embora sem nunca olhar pra trás. Reconheço os seus esforços e hoje penso que você teve seus motivos para fazê-lo, mas não ouso chamar de amor. Talvez depois de tanto sofrer na mão das pessoas, fosse muito cômodo e seguro o modo como eu venerava você e para não perder isso, você acabou se esforçando muito. Não sei… Mas a questão é, eu reconheço o seu esforço, independente dos seus motivos. Agora eu entendo porque você me bloqueia e porque me acha ruim. No seu ponto de vista, na sua versão da história, eu realmente fui e eu reconheço também isso. Reconheço que com as experiências que você tem hoje, uma pessoa como eu é tão ruim quanto um pai que cobra demais da gente. Como eu disse, me preocupei tanto com o seu futuro que me esqueci de que você é jovem e, principalmente, precisa ser jovem. Eu podia te dar o mundo, como eu quis, mas não era o suficiente pra menina de hoje que você é. A menina que só quer ser leve e se divertir. Eu idealizei tanto uma pessoa fodona, que me esqueci que você só quer ser uma garota comum rodeada de risadas, amigos e sem cobranças. E fui arrogante ao acreditar que se eu fizesse tudo por você eu seria o suficiente. Seria amiga, namorada, mãe, banco, porto seguro, irmã, couch motivacional, a pessoa que mais te encheria de elogios no universo, etc. Mas você precisa de quantidade, como está tendo agora, e não importa o quanto eu fizesse, eu continuava sendo apenas uma boneca solitária cheia de remendos que queria te dar as estrelas. (Foi esse meu primeiro presente de aniversário de namoro, lembra? Um pedacinho da galáxia). Mas hoje eu entendo que não há nada de errado em mim por você não querer tudo o que eu quis te dar. Eu não sou insuficiente como você me fez sentir por meses. O único “problema” é que você deseja coisas diferentes e que nós somos diferentes. E que você encontrou tudo o que você queria nas pessoas com quem você anda agora, e eu deveria me sentir feliz por você por isso.

Eu não prometo para ninguém que daqui pra frente eu vou estar sempre bem. Mas eu sinto que hoje é apenas o primeiro dia de uma nova caminhada. Hoje eu consegui trabalhar, e consegui sorrir, e não chorei, e ainda não me machuquei também. E esse texto não é pra te machucar, na verdade, ele é muito mais pra mim, do que pra você. Um dia, quando eu reaprender a ter total orgulho de mim novamente, eu quero me lembrar que eu passei por isso. Que por alguns meses eu acordei desejando ser atropelada por um caminhão e ia dormir chorando por não ter atingido essa meta. Que durante muito tempo eu amei alguém que apesar de ter me acordado de pesadelos tantas vezes, não reconheceu nada sobre minha luta. Não o suficiente para pensar duas vezes antes de dizer que eu era ruim, ou de me chamar de monstro. Eu quero me lembrar que apesar dos dias difíceis, eu venci. E que apesar de não ser popular, não ser bonita, ou jovem, e não ser a menina pela qual você é apaixonada, eu construí uma vida na qual eu ajudo milhares de pessoas a acreditar nelas mesmas e em seus sonhos. Você encontrou alguém que gosta das mesmas coisas que você e te acham massa demais por isso, e um dia eu vou encontrar pessoas que também me admirem e queiram por perto.

Eu não vou mais te procurar, isso eu sei. Não vou mais vasculhar suas redes sociais, pois eu entendi que a única coisa que ainda me ligava a você, era a vergonha e sentimento de insuficiência que você me fez sentir. Mas a culpada fui eu, pois eu te coloquei grande demais e me diminui, e agora eu enxergo as coisas como elas são,  quem você é e, principalmente, quem eu sou. E nos momentos em que eu me esquecer disso, eu vou reler essas palavras, ou aquele texto maravilhoso da Tati Bernardi, A bela e o burro, que me lembra tanto nossa história, e vou reencontrar o meu orgulho e o meu valor. E tudo bem agora eu ser ruim, chata, velha, feia, e etc se no futuro valer a pena.



18:10 e eu corro em direção ao shopping. Eu estou atrasada de novo, eu sei, mas é que eu fiquei tentando corrigir aquela olheira adquirida depois de mais uma noite mal dormida. Eu tento ficar bonita e torço para que você não perceba que eu passei mais uma noite em claro. Você não percebe, pra variar. Mas talvez dessa vez você só estivesse muito preocupado em me entregar o buque de rosas que você havia comprado. Eu te abraço e sinto o seu cheirinho de lavanda. Você era um daqueles caras que cheira como se tivesse acabado de tomar banho todo o tempo. Eu me sinto uma boba pela noite passada, afinal, ali estava você lindo como sempre, segurando pétalas perfeitas enquanto me roubava um beijo rápido. Você pega a minha mão e eu estufo o peito, esperançosa. 
Você me leva para comer e começa a contar as suas histórias. Eu gargalho até das piadas que você mesmo acha sem graça e presto atenção em cada detalhe que saí da sua boca. Você se empolga com um desfecho importante e mal percebe que eu vou deixando a minha comida de lado no prato. Você sempre me agradece pelo modo único como eu escuto você como ninguém mais o faz, e eu vou perdendo o apetite conforme percebo que o nosso encontro está chegando ao fim sem que você tenha prestado atenção nos meus detalhes. Até que enfim você me pergunta se tem algo de errado com a comida e eu murmuro que ‘‘não’’, mas eu penso que talvez houvesse algo de errado comigo. Você não insiste e passa para o próximo assunto, e eu oculto o fato de que na verdade você me faz sentir como se houvesse algo de errado em mim. Eu me arrumei toda e passei perfume até quase morrer sufocada, só pra ver se dessa vez você comentava algo, mas talvez a chuva tivesse levado o cheiro forte que deveria estar impregnado na minha pele. Cheirei a pontinha da minha camiseta e percebi, com tristeza, que o cheiro continuava ali. Ainda sim, talvez fosse só eu que já estava acostumada com aquela essência. Eu não podia culpá-lo. 
Você me leva pra casa e me tira a roupa, e eu finjo que vou pegar algo na geladeira só pra ver se você repara na lingerie nova que eu comprei pensando em você. Te observo deitado fuçando no celular e, vencida pelo cansaço de ficar ali parada, decido ir também para debaixo das cobertas. Você me toca a pele mais uma vez, como já o fez diversas outras vezes, sem se importar realmente em me tocar a alma. Você diz que foi tudo muito gostoso, e até foi! Carnal e visceral como deveria ser, mas eu ainda estou procurando a parte ‘‘sentimental’’ entre as roupas espalhadas pelo quarto. 
A chuva continua lá fora, torrencial e impiedosa enquanto eu me apresso para pegar o ônibus. Você me rouba outro beijo rápido e diz para eu te ligar quando chegasse em casa, mas eu não vou ligar! Só pra ver se dessa vez você liga. Eu me esforço para proteger o buque de rosas e chego em casa toda encharcada. Olho o celular e não tem nada seu lá. Nenhuma ligação. Nenhuma mensagem. Nenhum sinal de fumaça. Arrumo as rosas em um vaso e ela se torna a minha única companhia naquela cozinha gelada. O presente era lindo, mas se você soubesse que o que faz realmente diferença são os detalhes. Se sentir sozinha era ruim, mas se sentir solitária ‘‘acompanhada’’ era infinitamente pior. 
Você nunca me disse: ‘‘Nossa! Como você está linda!’’, e eu soluço mais uma vez em frente ao espelho me perguntando o que há de errado comigo. O batom saiu da minha boca sem ser notado, e o meu cabelo ficou bagunçado sem que você percebesse que eu fiquei horas arrumando ele do jeito que você gosta. Eu não consigo ver brilho nos seus olhos enquanto você me olha e eu não consigo perceber nas suas atitudes que eu sou aquela que te faz perder o ar só de lembrar. Eu não sinto que eu sou a garota a qual você sente orgulho em ter, e, consequentemente eu não me sinto especial ao ser sua. 
Horas depois o meu aparelho vibra e é você com mais uma história. Tantos minutos mais tarde você manda outra mensagem indignado por eu não te responder, mas você não se preocupa realmente em procurar saber o porquê eu não o fiz. Dessa vez, exausta, eu decido ir dormir e te deixar pra lá. Eu não acho que você percebeu, mas eu também já não te pergunto mais sobre o seu dia. Eu não fico mais no seu pé, preocupada se você se alimentou direito, ou se dormiu bem.  Eu estava me afastando conforme eu te sentia distante. 
Você me abraça em uma tarde de domingo e me faz sentir como se eu pudesse ser realmente feliz caso você não me soltasse nunca mais. Eu posso ver que você gosta do modo como eu te olho, e que você se sente importante ao perceber a importância que eu dou a você. Você se faz de modesto quando eu digo que te acho perfeito, mas deve ser fácil ficar com alguém sem ter que dar ‘‘muito em troca’’. Entretanto, de que adianta me fazer sorrir em um dia ensolarado, se nas noites de chuvas eu estou sempre sozinha? Você me fazia sorrir como ninguém durante um dia, confesso! E durante os outros seis eu lutava para não deixar arrebentar o fino fio que ainda me ligava a você. 
Dessa vez eu fui dormir sem ficar esperando a sua ligação de ‘‘Você sumiu. Chegou bem?’’, ou a sua mensagem de ‘‘Eu te adoro. ’’ Talvez se amanhã você estivesse de bom humor você me mandasse algo fofo. Talvez... Quando eu já tiver me acostumado a ir dormir mais uma vez sem os seus cuidados. 
‘‘Dar valor depois que perde’’ é tão clichê! E é por isso que eu faço questão de não fazer parte desse número de pessoas que só dá valor depois que perde. Mas, aparentemente, você não se importa em fazer parte das estatísticas. 
Enquanto você dorme calmamente com o seu ego amaciado pelos meus excessos, eu sinto que estou reconstruindo todos os meus muros que eu derrubei por você.






A intocável e poderosa socialite Anita Jensen, esconde um segredo. Ainda na infância assistiu seus pais serem brutalmente assassinados por uma máfia do submundo, e motivada pelo desejo de vingança, se torna uma das ladras mais procuradas da última década. Lícia Riley era uma detetive particular linha dura que ganhava a vida resolvendo casos sórdidos. Procurada pela máfia, ela se vê obrigada a aceitar a proposta do que seria um caso impossível. Motivada pela recompensa para salvar a mãe de um câncer, Lícia começa uma busca implacável pela verdadeira identidade da ladra Mist. O que nenhuma delas poderia imaginar, é que o destino entrelaçaria a vida de ambas no lugar mais improvável. Uma história sobre segredos e quebra de princípios. Uma trama onde ultrapassar a linha tênue de qualquer limite pode ser mortal.

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    O inferno existe e se chama saudade. Fez de mim seu espaço físico e me tomou como propriedade. Mantêm meu amor próprio em cárcere privado e abusa da minha paz.

    A saudade queima como fogo. Ouso dizer que, se fosse uma cor, ela seria vermelho sangue. Camufla-se entre meu fluxo sanguíneo apenas para pulsar ardentemente sob minha pele.

    A saudade me incomoda como um dia extremamente quente. Eu jogo água fresca no rosto, procuro uma sombra, chego a acreditar que estarei segura dentro de casa, mas o calor consegue ultrapassar as paredes e eu o observo propagando pelo ar em ondas, calmamente. E as gotículas de suor que escorrem pelo meu corpo são a prova de que a saudade está transbordando pelos meus poros.

    A saudade me veste como uma roupa de marca, só que pequena demais. Eu desfilo pelas ruas pagando de maravilhosa e finjo que sou foda por ostentar aquele ar de superior. Eu tento disfarçar meu rebolado pra que ninguém perceba o quanto aqueles panos apertados machucam, mas caramba! A saudade sufoca e incomoda pra caralho.

  Eu luto, diariamente, para me manter acordada, mas basta um segundo de silêncio interno para que ela me atormente. No instante em que eu fecho os olhos a saudade ganha forma, e, por ser meio sádica ou louca, (provavelmente, um pouco das duas coisas), eu tenho uma profunda queda por esse rosto. Sim, eu sou apaixonada por essa loucura que vive dentro de mim!

    A saudade é um paradoxo. A gente passa as horas tentando não lembrar, mas quando sonha, eu posso apostar que você daria tudo para que aqueles minutos durassem para sempre. É, eu sei! É um looping agonizante, frustrante e eterno.

    A minha saudade é como uma doença terminal. Me corrói por dentro, tão silenciosa que as vezes até me esqueço. As pessoas me olham com ar de piedade e algumas tentam me confortar dizendo que a dor uma hora passa. Meu sorriso é frouxo, e eu insisto em dizer que está tudo bem, mas qualquer um que vê meu olhar vazio consegue perceber a saudade estampada no meu semblante.

    A saudade não mata. É fato! Fisicamente falando, não existe ‘‘saudade’’ como causa mortis em nenhum atestado de óbito. Mas se algum legista pudesse dissecar minha alma saberia que eu estou morrendo por partes, em parcelas debitadas dia após dia. Eu não sou banco, mas posso te dar uma fatura detalhada das parcelas, ou posso fazer uma lista com um titulo brega:

Coisas que estão morrendo em mim sem você.  

A minha paz, cada vez que toca nossa música no rádio.
O meu prazer, quando eu toco outro corpo que não é o seu.
O meu riso, sem as nossas piadas ruins e o seu jeito ácido de comentar as coisas.
Os meus sonhos morrem, um por um, a cada passo que dou para longe do seu caminho.
A minha segurança, quando percebo que você não está por perto para me fazer sentir segura.
Meu coração, sempre que olho para o céu e percebo que o nosso destino já não está mais escrito nas estrelas.

     É saudade não mata, mas ela incomoda, aperta, sufoca e destrói tudo de bom que a gente guarda aqui dentro.


Quando as pessoas me conhecem e descobrem o modo como eu vivo, elas fazem uma careta e me perguntam o porquê, mas é tão difícil explicar o que é solidão para quem nunca se sentiu sozinho. Não encontro muito sentido em contar os motivos de eu ser tão louca e livre a um ponto quase mortal para aqueles que não sabem como é se sentir frágil. Para quem não tem ideia de como as garras da fome, do frio e do escuro apertam doído e te transformam em frangalhos. É tão complicado desenhar o que é medo para aqueles que não entendem nada sobre desespero. Para quem tem um lugar seguro onde repousar a cabeça e, independente do que aconteça, sempre terão um lugar para onde voltar. 

Eu era uma garota diferente. Meus jeans rasgados e tênis sujos não deixavam dúvida disso. Eu não tinha pra onde ir, nenhuma casa para chamar de lar, e nenhum ombro amoroso para ser só meu. A minha vida se transformou nas lembranças dos outros, e a minha casa era a esquina de qualquer lugar. Eu me alimentava das suas histórias e sonhos, e sorria ou chorava com eles. Era mais fácil do que encarar os demônios que eu guardava no bolso da velha jaqueta de couro. Eu era uma céu em plena lua nova! Um firmamento sem estrelas. Uma garota que se alimentava das recordações de uma época em que era uma constelação tão viva quanto a via láctea, onde cada estrela cadente era um sonho diferente. Entretanto, viu cada desejo morrer, um por um, lento e gradativamente. 

Havia um frenesi devastador dentro de mim! Movido pela vontade de provar todos os gostos do mundo e de quebrar todas as regras, tão imenso quanto o oceano e eu me afogava nele a tal ponto que eu não conseguia sequer voltar a superfície para falar sobre. Eu fazia a minha história e vivia intensamente! Sem me apegar as opiniões alheias ou aos comentários maldosos. Eu apostava alto na minha loucura, pois eu não tinha nada a perder. E a única moeda que eu conhecia para pagar pelo preço de ser um espírito indomável eram as lágrimas. Toda via, como explicar o valor caro disso para quem não sabe o que é ter que morder a própria mão para abafar o choro na falta de um travesseiro? 

Eu mandava no meu nariz e isso causava espanto. Havia dias em que me amava, e na maioria eu não suportava sequer olhar o meu reflexo. Então eu quebrava todos os espelhos espalhados por aí, e depois varria pra debaixo do tapete, lugar onde eu já escondia o resto dos cacos do que sobrara de mim. Mas eu era dona do meu corpo, e por isso eu fazia com ele o que eu bem quisesse. A vida era muito curta para não gozar a todo instante. Eu tentava encontrar felicidade em cada canto, e se eu não achasse, eu me sustentava sozinha! E que se dane os que me olhassem torto por isso. As pessoas irão prender a sua alma nas celas do "certo" e do "errado" se você permitir, mas eu era rebelde demais para me preocupar com isso. Eu não tinha limites, até porque, o que seria a dor para quem vive em uma eterna agonia?

Jessy Mendes